Exposição “Dos Brasis”: Sesc Franca recebe uma nova perspectiva da arte negra

Foto: Bruna Damasceno

Uma das iniciativas mais significativas das artes visuais no Brasil está prestes a desembarcar no interior de São Paulo. Entre os dias 28 de agosto de 2026 e 31 de janeiro de 2027, o Sesc Franca abrigará a exposição Dos Brasis – Arte e Pensamento Negro, que se destaca por ser a mais completa apresentação voltada à produção de artistas negros.

A mostra visa reexaminar a história da arte brasileira, focando em criadores, intelectuais, comunidades e vivências que, embora sejam essenciais para a formação cultural do Brasil, têm sido esquecidos nas narrativas tradicionais e nos espaços de reconhecimento.

Com um acervo composto por aproximadamente 90 obras, a seleção exposta em Franca abrange artistas de diversas gerações e regiões brasileiras.

Pinturas, fotografias, esculturas, instalações, objetos têxteis e produções audiovisuais revelam a diversidade da arte negra no Brasil, permeada por memórias, espiritualidade e experiências sociais.

Início da programação

Visando enriquecer o diálogo promovido pela exposição, a abertura contará com uma apresentação da Velha Guarda da Mangueira. O grupo celebra 70 anos de história musical com um repertório que homenageia as raízes do samba carioca.

A curadoria é liderada por Igor Simões, com apoio de Lorraine Mendes e Marcelo Campos. A montagem mantém a integridade conceitual vista anteriormente no Sesc Belenzinho em São Paulo e no Centro Cultural Sesc Quitandinha em Petrópolis, mas traz características únicas para o espaço francano.

Essa nova abordagem estabelece conexões com o ambiente expositivo local e a história cultural da região. Para esta edição, sete obras do Acervo Sesc de Arte foram integradas à mostra, incluindo trabalhos de No Martins, Eustáquio Neves, Isa do Rosário, Lídia Lisbôa, Jorge dos Anjos e Miguel Penha Chiquitano.

Lista de artistas participantes

  • Abdias Nascimento (SP)
  • Afonso Pimenta – Retratistas do Morro (MG)
  • Alexandre Alexandrino (SP)
  • Aline Motta (RJ)
  • Dona Romana (TO)
  • Ana das Carrancas (PE)
  • André Vargas (RJ)
  • Angela Lima (PE)
  • Annia Rízia (BA)
  • CALXDR e Diego Crux (SP)
  • Charlene Bicalho (MG)
  • Claudia Lara (PR)
  • Daniel Lima (RN)
  • Davi Cavalcante e Rayanne Ellem (SE)
  • Debis e Pablo Monteiro (MA)
  • Denis Moreira (SP)
  • Denise Camargo (SP)
  • Emanoel Araújo (BA)
  • Emanuely Luz (MA)
  • Francelino Mesquita (PA)
  • Gabriel Archanjo Santo (PI)
  • Glauce Santos (PA)
  • Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira (RJ)
  • Gugie Cavalcanti (DF)
  • Guto Oca (SP)
  • Helton Vaccari (MS)
  • Isa do Rosário (SP)
  • Joyce Nabiça (PA)
  • Keila Sankofa (AM)
  • Larissa Vieira (SE)
  • Li Vasc (PB)
  • Lucélia Maciel (BA)
  • Luciano Feijão (ES)
  • Lucimélia Romão (SP)
  • Marcela Bonfim (SP) e Dani Guirra (MT)
  • Marcos Dutra(TO)
  • Marcus Deusdedit(MG)
  • Maria Macêdo(CE)
  • Mariana Rocha(RJ)
  • Mauricio Igor(PA)
  • Mika(PI)
  • Napê Rocha(ES)
  • Noemisa Batista dos Santos(MG)
  • Odaraya Mello(RJ)
  • Pablo Figueiredo(MA)
  • Paula Duarte(MG)
  • Priscila Rezende(MG)
  • Outros participantes

    • Quilombo do Campinho – Adilsa Conceição Martins(RJ)
    • Quilombo do Campinho – Ismael Alves Conceição(RJ)
    • Quilombo do Campinho – Nelba Brasilicia(RJ)
    • Quilombo Pedra D’Água: Rendas de Ofício – Marlene Leopoldina Vital(PB)
    • Quilombo Pedra D’Água: Labirinteiras – Dona Maria Marta,
      Maria de Lourdes Ferreira dos Santos,
      Severina Francisca da Silva Pereira,
      Lidiane Saturnino da Silva,
      Maria Helena Duarte de Lemos(PB), Rafael Bqueer(PA), Rafael da Luz(PA), Renata Felinto(SP), Shambuyi Wetu , Roger Cipó e Carlos de Assumpção(SP), Sérgio Adriano H(SC), Seu Valentim Conceição(RJ), Sheyla Ayo(SP), Silvana Rodrigues(RS), Sunshine Castro(MA), Thiago Costa(PB), Folguedo dos Caretas de Triunfo(PE), Ueliton Santana(AC), Ulisses Arthur(AL), Ulisses Mendes(MG), Vera Ifaseyí(RJ), Waleff Dias(AP) Yhuri Cruz(RJ).

    A cidade como espaço criativo

    A nova edição estabelece um vínculo direto com três figuras negras profundamente ligadas a Franca: Abdias Nascimento, Isa do Rosário e Carlos de Assumpção. As histórias deles conectam a dimensão nacional da exposição à rica herança cultural e política local.

    Nascido em 14 de março de 1914 em Franca, Abdias Nascimento foi artista plástico, escritor e ativista. Ele fundou o Teatro Experimental do Negro e dedicou sua vida ao combate ao racismo além da promoção do pensamento pan-africanista.

    A cidade é assim um símbolo que marca o início de uma trajetória que impactou o teatro, as artes visuais e o debate racial no Brasil. Abdias também figura como patrono da Casa da Cultura e do Artista Francano.

    A história do Sesc Franca está entrelaçada com essa herança. A unidade começou suas atividades em novembro de 2024 com a exposição O Quilombismo – Documentos de uma Militância Pan-africanista, que homenageava Abdias Nascimento.

    Sob o olhar artístico

    Nascida em Batatais, Isa do Rosário desenvolveu uma conexão intensa com Franca através do envolvimento com o movimento negro local. Sua atuação inclui projetos voltados à arte, educação e preservação da cultura afro-brasileira. Durante a pandemia Covid-19 estabeleceu residência na cidade onde se destacou como bordadeira, artista visual e contadora de histórias. Suas obras abordam temas como diáspora e resistência espiritual.

    Sua trajetória inclui representações notáveis como na 12ª Bienal de Liverpool na Inglaterra e exposições importantes no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro além da individual Como a Terra Respira, exibida no Museu Afro Brasil em São Paulo.

    Carlos de Assumpção

    Carlos nasceu em Tietê em 1927 mas escolheu viver em Franca onde se tornou um importante advogado e membro da Academia Francana de Letras. Ele é reconhecido como uma referência na poesia afro-brasileira. Seu poema Protesto, escrito em 1958 é considerado um marco na literatura negra devido à sua crítica direta ao racismo.

    Cinco núcleos curatoriais para reflexão

    A exposição será organizada em sete núcleos curatoriais que funcionarão como espaços para reflexão crítica. Cada núcleo reunirá obras variando entre histórias distintas, linguagens artísticas diferentes que propõem conexões entre estética e questões sociais cotidianas.

    A necessidade urgente de desafiar as estruturas que definiram o que deve ser reconhecido como arte brasileira guia o núcleo Pontes Quebradas.

    No núcleo estão expostas obras que desafiam as narrativas construídas sob uma ótica privilegiada pela branquitude revelando artistas negros sempre presentes na criação artística nacional apesar dos desafios enfrentados ao longo dos anos.

    Foto: Matheus José Maria

    Ponto Avançado: este núcleo inverte papéis históricos nos processos artísticos mostrando artistas negros assumindo protagonismo na representação visual enquanto analisam os privilégios associados à branquitude. Essa mudança evidencia que toda representação possui uma carga política subjacente.

    No núcleo Caminhos Vivos, corpos cotidianos são apresentados junto aos afetos diversos mostrando modos existenciais além das imagens frequentemente ligadas à violência. As obras aqui refletem uma multiplicidade estética contemporânea abrangendo desde abstrações até novas identidades culturais.

    Maternidades Africanas: inspirado pelo conceito proposto por Lélia Gonzalez sobre amefricanidade este núcleo celebra o papel essencial das mulheres negras nas esferas cultural política social das Américas abordando temas variados como maternidade espiritualidade cuidado entre outros aspectos fundamentais para suas comunidades.

    No contexto deste núcleo essas mulheres são vistas não apenas como vítimas mas também como agentes ativas na criação redes sociais essenciais para sustentar suas comunidades locais.

    Caminhos Coletivos

    No núcleo denominado Luta Organizada, formas coletivas são apresentadas destacando quilombos associações movimentos sociais escolas culturais espaços onde se promove proteção ação autônoma sem ficar restrita apenas à resposta contra violência mas sim gerando novos saberes sociabilidades celebrações educacionais além das possíveis transformações futuras.

    No núcleo Sustentação Necessária, parte-se da ideia proposta por Luiz Gama sobre justiça legítima questionando as respostas às estruturas opressoras apresentando raiva denúncia ironia resiliência como formas políticas expressivas desta resistência podendo manifestar-se tanto por meio ações coletivas quanto gestos artísticos individuais todo um espectro amplo dessa luta pela dignidade humana dignidade.

    BALOBÁ: nome derivado obra criada por Emanoel Araújo traz reflexões profundas sobre ancestralidade espiritualidade memória interconexão saberes passados presentes futuros articulando tradições religiosas culturas orais saberes comunitários reafirmando laços entre vivos ancestrais descendentes representando ancestralidade não só retorno idealizado mas sim fonte essencial para orientação contemporânea práticas criativas hoje dia-a-dia .

    Acessibilidade Educacional

    Sendo coordenado por Andrea Mendes Programa Educacional visa facilitar mediações visitas atender agendamentos grupos desenvolver iniciativas socioeducativas alinhadas exposição . Equipe inclui Janaína Machado primeira responsável educativo projeto Dos Brasis Sesc Belenzinho elaborou materiais relacionais entre mostra obras artistas negros Acervo Sesc .
    Exposição contará também recursos acessíveis como vídeos Libras audiodescrição paisagem sonora legendas braile pictogramas conteúdos QR codes obra tátil produzida Alíngua permitindo aproximações fruição diferenciadas públicos diferentes .

    A trajetória nacional

    Dos Brasis resultado iniciativa Departamento Nacional SESC realizada colaborativamente Departamentos Regionais profissionais Rede SESC Artes Visuais .
    Sua origem remonta 2018 criação eixo Afrobrasilidades narrativas memória resistência impulsionaram pesquisas formações debates produção artística negra racismo estrutural sistema artes .
    Processo envolveu profissionais todos estados atividades presenciais mínimo 40 cidades 14 unidades federativas alcançando capitais interiores ateliês coleções quilombolas demais espaços criação preservação saberes .
    Primeira montagem Dos Brasis inaugurada agosto 2023 SESC Belenzinho São Paulo onde recebeu mais 140 mil visitantes seguindo Centro Cultural SESC Quitandinha Petrópolis com 384 obras 241 artistas .
    Chegada Franca dá continuidade circulação concebida percorrer unidades SESC país adaptando cada território mantendo força crítica poética.

    SERVIÇO

    Dos Brasis – Arte Pensamento Negro

    Curadoria-geral : Igor Simões

    Curadoria-adjunta : Lorraine Mendes Marcelo Campos

    Abertura :28 agosto às19h

    Período :29 agosto 2026 até31 janeiro2027

    Local :Sesc Franca Av.Alonso Y Alonso3071 Prolongamento Jardim Paulista

    Entrada gratuita

By Franca 24 Horas

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