Pioneirismo na medicina: Brasil registra o primeiro nascimento global a partir de embrião considerado inviável

Um menino saudável veio ao mundo no Brasil, fruto de uma decisão inovadora de médicos que optaram por transferir um embrião que, segundo as normas da maioria dos laboratórios de fertilização in vitro globalmente, teria sido descartado.

Esse caso, ocorrido na clínica Huntington Medicina Reprodutiva em São Paulo, foi recentemente publicado na revista científica internacional JARG (Journal of Assisted Reproduction and Genetics), cuja edição foi divulgada em maio de 2026. Os pesquisadores afirmam que este é um relato inédito na literatura médica mundial.

O que havia de “errado” com esse embrião

Durante o processo de fertilização normal, formam-se duas estruturas conhecidas como pronúcleos, uma oriunda do óvulo e outra do espermatozoide, indicando que a fertilização ocorreu com sucesso.

Porém, a presença de três ou mais pronúcleos indica uma anomalia: há um excesso de material genético e, na grande maioria das situações, isso impossibilita o desenvolvimento de uma gestação saudável.

No caso em questão, o embrião possuía cinco pronúcleos, mais do que o dobro do esperado. Em qualquer laboratório convencional, esse embrião seria descartado sem qualquer avaliação adicional.

A literatura científica até então não registrava nascimento saudável proveniente de um embrião com essa condição.

Três anos tentando ter um filho

O casal procurou a Huntington em novembro de 2023 após três anos enfrentando dificuldades para engravidar. A mulher, com 35 anos, apresentava histórico de endometriose profunda, uma condição caracterizada pelo crescimento anômalo de tecido semelhante ao uterino fora deste e que pode afetar a fertilidade.

O homem, de 41 anos, havia se submetido a uma cirurgia para tratar varicocele. Ambos tentaram indução à ovulação por quatro meses sem sucesso.

<pDurante o tratamento de fertilização in vitro, foram obtidos seis óvulos. Desses, quatro embriões se desenvolveram, mas apenas dois alcançaram o estágio avançado necessário para a transferência. Um desses dois apresentava os cinco pronúcleos anômalos.

Como a tecnologia ajudou

Diferentemente da prática comum de descartar embriões com anomalias imediatamente, a equipe médica decidiu realizar um teste genético avançado nesse embrião. Essa mesma técnica é utilizada para confirmar se o embrião possui a quantidade correta de cromossomos antes da implantação.

Para surpresa dos especialistas, o resultado revelou que o embrião tinha o número adequado de cromossomos e não apresentava alterações genéticas. Curiosamente, foi o outro embrião, que inicialmente aparentava estar normal quanto ao desenvolvimento inicial, que apresentou anomalias genéticas.

A evolução do embrião foi monitorada em tempo real por meio de uma incubadora equipada com câmera integrada para registrar cada etapa da divisão celular. Também foram aplicadas ferramentas de inteligência artificial para avaliar sua qualidade. Todos os sinais indicavam um desenvolvimento adequado.

“Quando recebemos o resultado do exame genético confirmando que não havia alteração genética no embrião, percebemos que a tecnologia estava nos revelando informações que não poderiam ser visualizadas apenas pela avaliação clínica isolada”, explica a Dra. Claudia Gomes Padilla, especialista em reprodução assistida e coordenadora médica da Huntington Medicina Reprodutiva.

De acordo com ela, “a combinação entre genética avançada, monitoramento contínuo e inteligência artificial nos forneceu uma base sólida para tomar uma decisão médica responsável. O nascimento deste bebê é um exemplo claro do potencial da medicina reprodutiva moderna quando aplicada de forma integrada”.

A decisão e o nascimento

Os profissionais explicaram detalhadamente ao casal todos os riscos e incertezas antes da escolha pela transferência do embrião. Como aquele era o único embrião geneticamente normal disponível para eles, tinham como opção transferi-lo ou encerrar o ciclo sem gestação. Decidiram tentar.

A gravidez transcorreu sem complicações e em fevereiro nasceu um menino pesando 3.168 kg e medindo 51 cm após 38 semanas e cinco dias gestacionais. As notas do índice de Apgar do recém-nascido foram 9 e 10, consideradas excelentes.

Os pesquisadores enfatizam que este estudo não deve ser interpretado como uma autorização para clínicas de fertilização começarem a transferir rotineiramente embriões com anomalias. A situação apresentada foi excepcional; o casal não tinha outras opções disponíveis e a decisão foi tomada após rigorosos métodos tecnológicos e aconselhamento médico aprofundado.

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By Franca 24 Horas

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